- me dá um cigarro aí, véi!
Eu me preparara, minutos antes, para a abordagem do moleque. Quando percebi que ele seguia meus passos pela rua erma e bonita com inesperado jardim margeando um rio sujo, arranquei a camisa e simulei uma calma que, talvez, o impressionasse.
- eu não fumo, meu velho.
- então passa essa corrente aí do seu pescoço.
Era uma correntinha de prata, ou um outro metal. Foi dada a mim por pessoa querida. Nunca, em minha existência flutuante, tinha eu me decido a negar o que quer que fosse com tão diabólica obsessão. Naquela madrugada sentenciei-me, um minuto antes, a não entregar a corrente nem que a recusa custasse toda a vida desse mundo nuclear.
- não te dou a corrente, meu velho, porque ela foi presente importante de verdade. Não te dou. – eu disse, inabalável.
Minha serenidade da superfície mentia todo um tumulto interno em meu ser, que até eu mesmo passei a ignorar. O moleque respeitou a minha decisão e, ali, ficamos amigos.
Meses depois, ele foi assassinado por policiais. A correntinha eu quebrei de propósito, por motivos vis, puxando-a com raiva do pescoço, numa tarde em que nem me lembrava mais do moleque…