Ago 13 2010

a câmera

eu assistia um filme quando a câmera, subitamente, tomou consciência de si mesma. Antes ela era fixa no personagem e vivia um enquadramento estático. Depois…

… depois a câmera transgrediu, talvez, o roteiro: desenquadrou o personagem, começou a fazer um giro devagar, num take sem cortes, e girou, e foi girando, até que, naquele mesmo take sem cortes! meu deus, sem cortes!, eu passei a vê-la – ela mostrou-se a si mesma e a sua lente olhava para mim, profundamente.

vou publicar um continho q fiz agora!

Ago 11 2010

a cruz

puseram, à beira da rodovia, uma cruz com o nome de um menino que morrera atropelado. Tempos depois, a cruz foi atropelada.


Jul 10 2010

o aleijado

o aleijado de pernas e braços recebera em sonho o grito de Deus “Levanta-te e anda”. Teve medo e respondeu “Não quero, não posso”. Mas o grito era forte e o aleijado levantou e andou. Mas na noite seguinte o grito de Deus lhe veio de novo em sonho “Levanta-te e anda”. O aleijado disse “Já levantei-me e já ando, estou no ápice” e levantou-se e pulou e correu. E o grito de Deus disse “Levanta-te e anda, aleijado, que Eu te falarei até o fim do mundo”…


Jun 25 2010

a mesa do mundo

fui mijar no banheiro de um boteco da rua F… e deparei-me com um texto manuscrito na parede suja:
não tenho medo de nada e, ao mesmo tempo, tenho medo de tudo. Sinto-me capaz de tudo e, ao mesmo tempo, impotente e incapaz”.
Enquanto balançava, pensei: ‘está aí o resumo de meu ser’! Sou um pessimista, e somente por isso, anseio mudar o mundo.
Saí do banheiro e voltei à mesa – à mesa do mundo…


Jun 22 2010

momento

nascer é explodir
mil eternidades pequenas
soltas no abismo matinal

querer-te é estar penso
por sobre as vagas
não sabidas da loucura

ver-te é ser sagrado
amar-te é ser eterno
deixar-te é conquistar o universo


Jun 8 2010

a corrente

- me dá um cigarro aí, véi!

Eu me preparara, minutos antes, para a abordagem do moleque. Quando percebi que ele seguia meus passos pela rua erma e bonita com inesperado jardim margeando um rio sujo, arranquei a camisa e simulei uma calma que, talvez, o impressionasse.

- eu não fumo, meu velho.
- então passa essa corrente aí do seu pescoço.

Era uma correntinha de prata, ou um outro metal. Foi dada a mim por pessoa querida. Nunca, em minha existência flutuante, tinha eu me decido a negar o que quer que fosse com tão diabólica obsessão. Naquela madrugada sentenciei-me, um minuto antes, a não entregar a corrente nem que a recusa custasse toda a vida desse mundo nuclear.

- não te dou a corrente, meu velho, porque ela  foi presente importante de verdade. Não te dou. – eu disse, inabalável.

Minha serenidade da superfície mentia todo um tumulto interno em meu ser, que até eu mesmo passei a ignorar. O moleque respeitou a minha decisão e, ali, ficamos amigos.

Meses depois, ele foi assassinado por policiais. A correntinha eu quebrei de propósito, por motivos vis, puxando-a com raiva do pescoço, numa tarde em que nem me lembrava mais do moleque…


Jun 4 2010

a roseira e a morte

ao pé do móvel de madeira compensada jazia o vaso quebrado onde habitara a sua planta de estimação. Era uma roseirinha feita só de caule e folhas. Ajuntou a terra, arranjou novo vaso e replantou a planta, só folhas e caule, sempre esperança de rosa. Deitou-se no sofá velho e esperava.

Era noite. Chegou seu amigo, cumprindo noturna rotina, trazendo-lhe conhaque, duas doses, um copo e um canudo. ‘Está morto!’ conferiu o amigo que não sabia mais nada.

A roseira, que nunca vira uma rosa, compunha-se agora de duas rosas vermelhas ignoradas por falta de sujeito que as visse. Mistério! mas ninguém, ninguém!, por pleno desconhecimento, pôde dizer que na sala onde viveu-se uma morte existiu também magia.


Jun 2 2010

o filho de Nietzsche

- filho de uma puta… você, meu filho, é, literalmente, filho de uma puta…

- minha mãe, que deus a tenha! deixou-te um legado… – o jovem enfatizou o ‘que deus a tenha’ olhando o pai com olhar de fogo.

- Sim! Um duplo legado! você e a sífilis – quis Nietzsche envenenar a ambos.

O filho começou a chorar um choro amargo. Sacou que o pai queria atingí-lo. Nietzsche não se orgulhou:

- menino fraco! Seria digno de mim se amasse sua tragédia! Mas não suporta a vida, que dirá a própria imortalidade!

O menino reagiu, voz colérica:

- caralho de imortalidade, de eterno retorno! Uma doutrina mística que até a bíblia mencionou antes de ti*. Você desafia a finitude sem amar suficientemente a imortalidade. Por isso tem febre todo dia…

Nietzsche chorou, baixinho, mais do que no dia em que abraçara, em antiga rua, um cavalo moribundo!

___

* Eclesiastes 1, 9 e Atos 3, 21.


Mai 28 2010

um apartamento em paris

- e você. Cadê o seu trabalho? – cobrou o professor, sem olhá-lo.

- não o fiz.

- por que não? Todos entregaram.

- cara… decidi não fazê-lo…

O professor olhou-o:

- e por que não?

Diante da insistência do professor (que parecia resultar de uma curiosidade sarcástica indefinida), resolveu falar com uma voz firme e serena:

- porque não reconheço a sua autoridade. Sua curiosidade sobre meu desinteresse é a única coisa inteligente que se acha em você. Você nunca apresentou um conhecimento novo, nunca ofereceu algo de si mesmo. Você se considera, no fundo, um ditadorzinho. Dar aula é seu fetiche, esta sala é seu teatro e você é claque de si mesmo! Os seus métodos…

O professor, estupefato, interrompeu-o. Veias do pescoço alteradas e cara assustadoramente inflamada, forte tapa na mesa, altíssimo brado:

- RESPEITE-ME MOLEQUE! EU TENHO UM APARTAMENTO EM PARIS!


Mai 22 2010

o mito do progresso

- que cara é essa, cara?!

- estou lendo ‘O mito do Progresso’…

A resposta, embora esclarecedora, omitia algo. A cara do cara não expressava só desalento, mas deixava entrever, aos olhos do espírito, um desespero já desistido antes de vir à tona. Insisti com o olhar dos olhos, e ele, grato e provisoriamente gago, confessou:

- o livro… eh.. diz… descreveu as circunstâncias exatas da morte de meu avô!

Eu não entendi, mas fingi plena compreensão. Ontem comecei a ler o livro. Nele, o progresso é um mito dos grandes. Não é só uma mentira deslavada – é um horror! esculacha a nossa atual organização social, sapateia em cima dos valores da maioria dos cabeças ocas adeptos, simultaneamente, da revista Veja e do twitter. Escarra na ciência (ou, antes, nas suas motivações e objetivos submissos atuais). Dá uns três tapas na cara da medicina e dedura os médicos, esses profissionais que ‘reduzem o ser humano a um repositório de doenças’.

De repente, estremeci! o livro descreveu as circunstâncias exatas da morte de meu pai: numa cama de hospital, CTI, sozinho e entubado…